quinta-feira, 12 de maio de 2016

"O grito"



     Ouviu outra vez o grito. Sim, aquele grito de antes, o mesmo. Olhou para a janela, mas não viu ninguém a cortar flores. “O que é que se passa?", pensou ele.
Imediatamente pôs-se a correr pela casa, a verificar todas as divisões, à procura da origem do grito, contudo, inutilmente. Não havia nada nem ninguém. Estava a olhar para a parede, quando ouviu o grito outra vez.
     Percebeu logo. Ele viu que à sua volta, dezenas de seres vivos estavam a ser prejudicados por causa dele e do resto das pessoas. Ouviu o grito de novo.
Diz-se que foi nesse momento que ele enlouqueceu. Ele começou a arrancar a tinta das paredes, para não prejudicar os fungos. Abriu todas as torneiras com água quente, para humedecer a casa. Despejou lixo no chão e e atirou  os produtos de limpeza pela janela.
     Mesmo assim, continuava a ouvir gritos. Gritos de toda a espécie e frequência, de toda a altura e intensidade.
     Passado uns anos, a casa dele estava destruída. Aquele casarão que ele tinha, estava agora em ruínas. As paredes na melhor das hipóteses, estavam deterioradas, se ainda estivessem de pé. O chão estava coberto de toda a espécie de seres vivos. Uma testemunha revelou que tinha visto um papagaio lá.
     - Que pena - comentava uma vizinha - ninguém merece enlouquecer assim.
     - Acho que ninguém merece enlouquecer, seja como for- ripostou outra.
     -Foste a última a vê-lo, sabes, antes “daquilo” acontecer, não foste? - perguntou.
     - Sim – afirmou a Sr.Saunders – sim, fui eu. Ele pareceu-me muito estranho. Ele sempre pareceu-me um pouco esquisita, mas nunca pensei que isto fosse acontecer. Que pena.

José Simões, Nº 24