Ouviu outra
vez o grito. Sim, aquele grito de antes, o mesmo. Olhou para a janela, mas não
viu ninguém a cortar flores. “O que é que se passa?", pensou ele.
Imediatamente
pôs-se a correr pela casa, a verificar todas as divisões, à procura da origem
do grito, contudo, inutilmente. Não havia nada nem ninguém. Estava a olhar para
a parede, quando ouviu o grito outra vez.
Percebeu
logo. Ele viu que à sua volta, dezenas de seres vivos estavam a ser
prejudicados por causa dele e do resto das pessoas. Ouviu o grito de novo.
Diz-se que
foi nesse momento que ele enlouqueceu. Ele começou a arrancar a tinta das
paredes, para não prejudicar os fungos. Abriu todas as torneiras com água
quente, para humedecer a casa. Despejou lixo no chão e e atirou os produtos de limpeza pela janela.
Mesmo assim,
continuava a ouvir gritos. Gritos de toda a espécie e frequência, de toda a
altura e intensidade.
Passado uns
anos, a casa dele estava destruída. Aquele casarão que ele tinha, estava agora
em ruínas. As paredes na melhor das hipóteses, estavam deterioradas, se ainda
estivessem de pé. O chão estava coberto de toda a espécie de seres vivos. Uma
testemunha revelou que tinha visto um papagaio lá.
- Que pena -
comentava uma vizinha - ninguém merece enlouquecer assim.
- Acho que
ninguém merece enlouquecer, seja como for- ripostou outra.
-Foste a
última a vê-lo, sabes, antes “daquilo” acontecer, não foste? - perguntou.
- Sim –
afirmou a Sr.Saunders – sim, fui eu. Ele pareceu-me muito estranho. Ele sempre
pareceu-me um pouco esquisita, mas nunca pensei que isto fosse acontecer. Que
pena.
José Simões, Nº 24